Curta
Um sujeito fumava na janela da sala e um dia sua mãe surgiu de supetão. A bituca voou pela janela e houve um incêndio no jardim, mas a mãe nunca descobriu seu vício.
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Por que escrevo?
Escrevo porque escrevo.
Escrevo por uma necessidade intrínseca de expressão. Escrevo pois meu coração não cala e minha mente não consente. Escrevo porque às vezes a solidão é consistente. Escrevo porque o espaço da solidão aqui dentro é muito pequeno. Escrevo, como não, para fazer de meu mundo ameno.
Escrevo quando estou triste e quando estou feliz. Escrevo por amor, por ódio, por paixão, por mesura e por clausura. Escrevo o que vivo, o que sonho. Escrevo o que anseio. Escrevo o que almejo, os meus suspiros, os meus desejos. Escrevo pra dar cor à minha alma. Escrevo pra abrandar minhas gasturas, pra engrandecer minha tesura. Escrevo, sem censura.
Escrevo sozinho e acompanhado, se precisar. Escrevo para voar, para enlouquecer, para engrandecer, para imaginar. Escrevo por reverência. Escrevo pra referências. Escrevo para morrer, para matar, para ressuscitar, para sobreviver. Escrevo para viajar e ficar e fugir e conter e voltar… e ser.
Escrevo para ouvir a música e para ouvir o sentimento. Escrevo para enxergar o passado e enxugar as lágrimas. Escrevo para tatear o vento e titubear maus pensamentos. Escrevo para exalar poesia, para palpitar harmonia. Escrevo e experimento mil gostos, escrevo e conheço mil rostos.
Escrevo por uma obrigação mecânica de existir. Escrevo quando quero chorar, escrevo quando preciso sorrir. Escrevo pela tolerância. Escrevo pela paciência. Escrevo por instantes. Escrevo pela eternidade; e pela verdade. Escrevo, também, porque tenho saudade.
Escrevo porque tenho medo do fim. Escrevo porque não tenho controle de mim. Escrevo porque preciso de um mundo assim: de cores, de amores, de flores, de atores, sonhadores, de leitores, escritores, faladores, inventores…
Eu só escrevo porque quando escrevo estou escrevendo.
E aí, oras… Escrevo.
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Go!
Eu me lembro de uma vez, quando era bem pequeno e que por algum motivo a Record transmitia o anime do Speed Racer nas manhãs de domingo. Hoje, parando pra pensar, via um brilho especial nos olhos do meu pai ao ver o desenho passar na televisão tanto tempo depois. Anos 60, ele devia ter a mesma idade que eu quando assistiu Speed pela primeira vez. “Eu fazia umas miniaturas dos carros com massinha, quando tinha sua idade. Daí fazia umas corridas bacanas lá no quintal da sua vó.”
Lembro-me de minha fascinação, na época. Eu devia ter o que, dez anos? Provavelmente, a mesma idade do Gorducho. Fato é que, por nostalgia, meu pai gravou alguns episódios em VHS do que a Record exibiu do Speed e eu, insone desde pequeno, passei a assistir o anime favorito de meu pai até depois da meia-noite - e a parte “Adventure’s waitin’ just aheeeeeead! Go Speed Racer, Go!” grudou na minha cabeça e eu cantava toda hora (mesmo sabendo lhufas de inglês).
Pra quem não sabe, um panorama: Speed Racer é o personagem principal dessa história, e ele respira carro e transpira corrida. O pai é projetista de carros, a mãe dá todo o apoio na torcida, e Speed tem como ídolo o irmão mais velho, Rex, que já é piloto. Após a trágica e misteriosa morte de Rex, Speed se torna piloto também, mantendo vivo o legado da família Racer.
Muitos anos depois e aí que começam as promessas: um filme live-action de Speed Racer, dirigido pelos irmãos Wachowski (os criadores de Matrix), com Emile Hirsch, Christina Ricci, Mathew Fox, Susan Sarandon… E aí vem o clipe - céus, quantas cores! - a data de estréia e, wow! Speed Racer e um montão de nostalgia chegam juntos ao cinema.
Decididamente e desde já o filme mais incrível que vi este ano e que vou dizer pra sempre “este eu vi no cinema”, Speed Racer tinha tudo pra dar errado: cá entre nós, um filme que usa um macaco como alívio cômico não pode ser levado a sério (quer um exemplo? Ace Ventura, George e qualquer outro que você se lembre agora). Não sei se é o lance da adaptação ou se o macaco do filme é simpático mesmo, mas a dupla Zequinha e Gorducho funciona bem, sem ser chata.
O visual do filme também assustou de início: muita cor, muita psicodelia, muita confusão; mas tudo se torna muito necessário. Speed Racer é, de fato, um anime live-action - qualquer forma diferente de ver essa história seria ineficiente, os Wachowski acertaram em cheio. Aliás, acredito que o filme é um dos exemplos de que efeitos especiais podem sim ser usados a favor de um bom filme pop. Aliás, já que estamos falando de aspectos técnicos, é importante dizer que Speed Racer arrasa no quesito narrativo: o início do filme, que alterna entre uma corrida atual e o passado da família Racer, é toda importante para nos inserir no conceito da história e na cabeça do personagem principal (interpretado pelo simpático Emile Hirsh, tão meu querido quanto Shia Labeouf). A ferramenta “como está agora e como fica depois ou antes” é tão bem utilizada que não confunde o espectador em momento algum.
E céus, o filme é incrível como adaptação, é tudo exatamente igual ao desenho: as mudanças ágeis de cenas, a câmera rodando ao redor dos personagens, as roupas, o visual dos atores - Christina Ricci está tão parecida com a Trixie e tão linda no papel que chega a dar nojo (bom, é claro). Pops também está idêntico e, mesmo que tenham mudado a roupa do Corredor X (interpretado por - aiai! - Matthew Fox), achei que ficou muito parecido. E - é claro - os carros. Mach 5 está perfeito e, nossa, juro que me arrepiei no primeiro pulo (sim, em Speed Racer os carros pulam) e no barulho característico que ele faz. Direção de arte soberba: sempre algo na tela para encher os olhos.
Obviamente direcionado para o público infantil, Speed Racer é um filme descompromissado para se ver em família. Roteiro redondinho, apenas com a ressalva de que a relação Speed/Rex poderia ter um pouquinho mais de emoção. A insituição família, aqui, é muito valorizada. Facinho de emocionar os mais sensíveis.
(quando Speed é jogado de um penhasco e liga os “dentes” nas rodas para escalar a montanha - exatamente como no desenho - a música de fundo tocava o tema principal do filme: aquela cena existe no desenho, exatamente daquele jeito. Babei.)
Quando o filme acabou, confesso que nem vi passar. A última coisa que reparei é que o cara da trilha sonora, Michael Giacchino, fez milagre com o tema da série - o remix que toca no final é assim, fantástico. Tô com ele na cabeça até agora. Saí do cinema meio tonto de emoção e meu pai parecia estar assim também. Engraçado que, quando entramos no carro e aceleramos pela Anchieta, um cara nos fechou e nos jogou para o lado.
- Vou apertar o botão aqui, acionar a mola e pular por cima desse cara. - comentou meu pai. - E daí a gente anda com o carro de lado por ali.
Rimos. Bastante.
Fazia tempo que não ouvia uma piada tão sincera e pertinente vinda dele. Ele tem 49 e eu quase 21, mas quando a gente encontra algo que gostamos na mesma intensidade, sinto que realmente temos a mesma idade… Dez ou doze anos, talvez? Nunca precisei tanto saber que ele estava comigo, mesmo que estejamos passando por tudo isso que vem acontecendo. E naquele momento isso foi muito claro, e muito importante, e foi tudo.
Speed Racer proporcionou essas coisas. Aí que o preço do ingresso é muito barato. Se fosse pra viver isso tudo de novo, eu pagava o dobro do preço, sem pestanejar.
* * *
(pra quem acha que eu não vejo erros: sim, a história tem uns probleminhas de roteiro e às vezes o filme parece com o remake de A Fantástica Fábrica de Chocolate, ás vezes tem cores de O Gato e tem uns quês de, sei lá, Hot Wheels. Basicamente, as técnicas dos pilotos são tão malucas que eu me senti jogando Mario Kart em alguns momentos. Mas temo dizer que os Wachowski estão realmente um passo a frente de seu tempo: Speed Racer é um filme corretamente direcionado, usa os efeitos especiais a seu favor e é tecnicamente inteligente. Pode demorar, mas acredito que os méritos desse filme ainda serão bem reconhecidos).
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