Meu avô, o violão e eu
Quero aprendar a tocar violão para que, um dia, honre a memória de meu avô. Ele nunca soube me ensinar e eu nunca quis realmente aprender.
De fato é difícil explicar a falta que sinto de algo que nunca tive.
Acontece que eu mal posso esquecer o rosto orgulhosamente sábio dele, quando, sentados ao pé da escada, ele tentou me mostrar os acordes. E eu fingi prestar atenção, mas ignorei.
Vô, você nos arrastava ano após ano para a sua fiel e genuína crença nos três reis magos. Pelo que você contava, uma promessa a eles lhe salvara a vida. Indiretamente, você me fazia segurar a bandeira e, mesmo não falando, eu tinha um orgulho imenso ao vê-lo entre os outros senhores, cantando.
E tocando violão.
Talvez eu devesse ter parado tudo.
- Vejam, é meu avô! Parem para ouvi-lo.
Um dia, as pessoas realmente pararam, mas você não tocava o violão. Seu corpo, um dia tão saudável, dormia seu último e eterno sono.
Vô, desculpe demorar três anos para perceber que o senhor povoava nossas vidas. Desculpe não reconhecer cedo que o senhor ia me buscar, me levando até sua casa para eu brincar com meus primos.
Como pode? Eu sequer me lembro do que você dizia. Exceto o comentário afável de que eu tinha o cabelo liso, que você insistia em cortar. Você tinha um salão de barbeiro. E eu sequer fiquei sabendo o que aconteceu com suas ferramentas.
Sua partida dividiu a família em dois. Mas é só hoje que posso compreender, pelo menos um pouco, a fúria do meu pai. Só hoje posso perceber o porque do desespero fingido de minha tia. Só hoje, só hoje.
Vô, nós nunca fomos exatamente próximos. Mas foi você que me ensinou que ceder não significa ser necessariamente fraco.
Passei cerca de doze anos com a chance de te ligar e perguntar como o senhor estava. Nunca o fiz.
Em compensação, foi através de uma ligação que soubemos de tudo. E foi através dela que pegamos o primeiro ônibus pra São Paulo.
Entrando na ambulância, e você disse:
- Eu vou ficar bem, pessoal.
Como, caramba, como alguém pode ser tão forte com aquele monte de tubos e agulhas pelo corpo? Como?
Desculpa se não fui o neto mais próximo.
Prometo aprender violão e honrar a dignidade do seu nome e da sua crença.
Porque, quando perdemos pessoas, resta-nos apenas uma tentativa desesperadamente inútil de mante-las em nossa memória. Porque, quando falamos dessas coisas, só nos resta o julgamento alheio de pena e compaixão.
E nós não merecemos?
O senhor se foi e, como uma porção de outras coisas em minha vida, não tenho nem sequer uma foto para dizer que, um dia, meu sentimento existiu, ou existe, ou é verdadeiro.
Minahs lágrimas são reais, mas não têm significado. Elas traduzem uma saudade impossível de ser sentida.
Saudade até mesmo do último toque com suas mãos cruzadas, assustadoramente frias. Mãos que, anos atrás, tocaram nas cordas de um violão, no intuito de alcançar o coração egoísta de seu neto caçula, sentado no degrau da escada.
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Ah rafinha ó_ò
Só digo que queria que você já estivesse aqui.
Mesmo.
acisúm amu oreuq ue
(ovon ed) ierohc esauq ue e
*:
chorei….
e pronto…
lindo rafa!
=*