Caro Rafael Pelvini,

O tempo parou por um instante quando pensei em redigir essa carta, e esse instante foi o suficiente para escrever as seguintes linhas pra você. Claro que você vai ter que aliviar qualquer deslize meu - afinal, por mais cuidadoso que se seja, um instante é extremamente pouco para se fazer algo (é, até eu tenho dificuldades de aproveitar os momentos).

É que você está finalmente chegando num momento crucial de sua vida (mais um momento, não é mesmo?). São vinte anos! Olha, num mundo onde se morre com alguns meses de vida, chegar aos vinte deve ser visto como uma proeza. Afinal, é um quinto de século. São duas décadas. Duas décadas! Tanto tempo e eu ainda posso ouvir o seu choro ao nascer, Rafael.

Naquela vez, quando você tava a caminho do vestibular, no carro, lembra? Bem, seus pais lhe falaram algumas coisas de como foi seu nascimento, mas não deram os detalhes completos. Eu sei porque estava lá ouvindo o que eles contaram. E, cá entre nós, eu também estava lá quando você nasceu.

Era uma tarde morna, e eu tinha deixado Outubro escorregar pelos meus dedos. Era primavera, veja bem, uma estação muito bonita. E eu tenho essa mania de ficar atento a quem nasce em começo de mês; acho que esses sortudos determinam - pelo menos para mim - o que aquele período irá significar.

No que dependeu de você, seria um mês triste. Digo isso com ironia, mas sua mãe dizia a verdade quando contou que você já estava chorando antes de nascer. Ela disse que pôde senti-lo prantear dentro da barriga, e eu confirmo pra você. Afinal, a barriga pode ser um lugar quentinho e agradável quando se é um bebê. Como as pessoas lidam com essa primeira despedida é uma marca em seu caráter.

Você, como não poderia deixar de ser, sofreu mais que todo mundo. Vinte anos depois e você ainda não se acostumou com as mudanças (eu confesso que já fui muito maldoso contigo, e não sem motivo, mas não posso abrir certos segredos com você).

Mas, voltando ao que quero contar; falemos da enfermeira que falou “Mãe, é um menino!” e colocou em vocês dois as pulseiras com o número 21, para identifica-los. Bem, essa enfermeria foi a primeira que falou “Meu deus, mas que menino chorão!”.

Ah, e como era verdade. Eu mesmo não aguentava sua berreira. Era possível ouvir do final do corredor da maternidade. As outras pessoas não falavam, mas você incomodava, Rafael, e como incomodava. Desculpe a sinceridade! Mas é que, como eu sabia antes, logo seu apelido seria ‘O Chorão’.

Enfim.

No entardecer daquele primeiro de outubro, você só parou de chorar por um momento. Foi com a primeira visita. Seu pai. Ele chegou na maternidade, e a (cômica) enfermeira perguntou, sem constrangimentos: “O senhor é o pai do chorão?”. Eu dei risada, naquele momento, mas ninguém ouviu. Aquela enfermeira ficaria caladinha dali a pouco.

Seu pai se aproximou do leito e você, recém-nascido, parou com o pranto desgoelado por um único segundo. Você fitou o rosto de seu pai, que ficou admirado com os seus olhos amendoados, grandões, de bebê mesmo.

Foi a primeira vez que falaram com você, Rafael.

“Oi, Filho.”

(você deve me permitir uma pequena liceça poética, aqui. Na realidade, seu pai foi tomado por um silêncio que só os pais conseguem ter numa hora dessas. Bom, seu pai não falou nada. Mas com certeza foi isso que ele pensou)

E o que eu já planejava para seu futuro, tive toda certeza naquele momento. Eu via seu pai, sua mãe e sua família, via os outros que nasciam ao mesmo tempo que você, ali e em outros lugares, e percebi. Percebi o que te faria diferente dos outros e, confesso, senti um pouco de tristeza por isso (na realidade eu sempre fico triste ao perceber qualquer coisa em qualquer ser vivo, mas como eu posso evitar?).

As pessoas dizem que librianos como você são sensíveis demais; porém, veja: sensibilidade não tem nada a ver com astrologia. Só não fique dizendo isso e difamando a crença dos outros, o Passado já te ensinou como isso é muito, muito chato. Eu já te passei algumas informações importantes, mas nunca me aproximei muito - e como poderia? De todos, sei que materializo o seu maior medo.

De qualquer forma, no momento que seu pai falou com você pela primeira vez, eu já tomei a liberdade de te reservar alguns momentos espetaculares. Também moldei algumas coisinhas aqui e ali: sensível daquele jeito, você teria inclinação para alguma arte - hoje você já sabe qual é - mas sua preocupação faria de você uma pessoa insegura, e indecisa. Sente como uma coisa leva à outra?

Olha, eu preciso parar com essa mania de divagar mais do que meu tempo permite. Como eu disse, comecei a escrever tudo isso num único instante de descanso e despreocupação, e me perdi no que queria realmente falar pra você. Mas está acabando, prometo.

É que, na realidade, essa carta é um pedido honesto de desculpas. É, é isso mesmo.

…lembra-se daquela primeira vez, naquela noite escura, você andando pela praia sozinho, ainda recém-chegado? Pois é, você não estava sozinho. Eu estava te acompanhando, mas você não percebeu porque eu não deixava pegadas na areia. E, ao me enfrentar, você me achou cruel e não entendeu porque eu te reservei aquilo. Você me odiou, mas não pude evitar: coloquei as lágrimas nos seus olhos, e você chorou, até desabar. Foi a primeira vez que eu te fiz querer desistir, e foi a primeira vez que você me temeu realmente.

O que, infelizmente, é compreensível. Poucos tiveram coragem de me encarar de frente, e estes poucos quase já não existem para contar história. Você continua aí, é claro, contando outros tipos de histórias, mas ainda me temendo, ainda se achando um solitário. Peço desculpas por isso. E quero que, pelo menos um dia, você reconheça que fui eu quem te apresentou aos seus amigos. Sabe, aqueles verdadeiros? Então. Eu preparei cada um deles, para que se encontrarassem. Que bom que você e eles estão aproveitando tudo direitinho - assim eu fico satisfeito, e continuo criando momentos mais maravilhosos.

E, já que falei sobre isso… Sabia que meu ofício exige uma criatividade além da imaginação? Pois exige. Tá certo que tanta inventividade tem sérios efeitos, mas pelo menos você pode perceber que tudo - veja bem, tudo - tem seu preço. É um preço caro a se pagar, comumente chamado de “consequência”. Sei que você já entendeu essa lição parcialmente, mas, ei, você tem muito o que caminhar ainda.

Afinal, a vida é curta, meu caro rapaz. Eu sei exatamente o momento em que a sua vai acabar - também tenho a função infeliz de bolar como isso acontecerá. Mas, olha… Confesso que preparei algumas outras surpresas espetaculares pelo seu caminho. Algumas são mais felizes que outras, com certeza. Mas, acredite em mim, Rafael: são momentos incomparáveis. Assim como as vidas cujo vim tecendo o caminho… Nenhuma pode ser comparada com a outra…

Mas meu tempo está acabando. Antes de qualquer despedida, (é uma pena que não serei o primeiro a te dizer isso hoje) lhe desejo o mais Feliz de todos os Aniversários. Lembre-se, vinte anos é algo pelo que se lembrar, e mal posso esperar para você ver o que eu reservei pra você daqui em diante.

Ah, eu mal posso esperar, e, seja lá o que você sentir - se vai me odiar ou se vai me amar - quero que saiba que eu estou me esforçando bastante.

Do inimigo mais temido

e amigo mais sábio,

O Futuro.



8 Responses to “Cartão de Aniversário”  

  1. 1 nathy

    eu tambem tenho medo do futuro
    putaquepariu, me desculpe a palavra, mas tem horas que eu me estremeço só de pensar…
    chorei lenso a carata do seu futuro, não só por ela confesso
    mas aff, ja cansei de te dizer que as vezes você escreve as coisas que de certa forma me dizem algo no momento certo né?!
    mas é verdade….

    enfim…
    feliz aniversário de 20 anos, querido amigo rafa :)

  2. 2 Pequena Pensante

    ….

    - aah!!! mais uma veez, Pelviini.
    você já sabe néah?? x}

    24 primeiros minuutos do seu dia…
    e eu lhe desejo feliz aniversário de novo ^^
    bem, que hoje seja um diia muito feliiz e que te façam sorrir muito ;D

    um beijo, pelviini.
    ;*

  3. 3 Emile

    Fantástica essa carta !!! Sem mais comentários, a não ser …
    Feliz Aniversário !!!
    Bjão

  4. 4 Gustavo Brito

    Meus parabéns, Pelvini - pelo seu aniversário e pela grandiosa carta. Achei a muito bonita.

    Abraços.

  5. 5

    Ai, quando eu crescer eu quero ser como você!
    E escrever bem como você, Tio Rafa!
    HAHAHA

    Feliz aniversário, mais uma vez!
    TE AMO
    =*

  6. 6 Leticia Brito

    Parabéns, você foi capaz de fazer, com estes teus escritos, algo que é realmente dificil de acontecer comigo, eu chorei.
    Não tem coisa que me toque mais do que palavras bem escritas. Realmente, você tem um talento maravilhoso, nunca desista de continuar a escrever, pois tenho certeza de que podes ser grande.

    Beijos

  7. 7 Fernando

    5 minutos. 5 longos minutos. Esse foi o tempo que levei pra conseguir expressar quaquel tipo de comentário. Eu disse a vc que ia passar por aqui e ler, mesmo que fossem antigos, os seus textos. Sabe eu estou no futuro (quase 7 meses) e eu penso, penso… busco em meu vocabulário, esse agora que me deixou ‘na mão’, uma palavra para expressar o quanto maravilhoso é esse texto. Muitas vezes tentei dizer a você palavras de incentivo e elogios pela forma e habilidade que você escreve, hoje, ou melhor agora, vejo que não sou mais capaz… essa perfeição e maturidade na capacidade de fazer com que nos emocionemos é incrível.
    Só posso dizer que 7 meses depois desse texto ser aqui escrito, você amigo Rafael, terá um texto seu publicado em um livro de contos de terror! Isso é apenas o começo de uma sólida e memorével carreira que está por vim.
    Parabéns pelo aniversário heheh

  8. 8 Jair

    fodasticooooooooooooooooooo

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