HÁ UM ANO… Simples Assim

A festa era decorada por fitas e multicores e as fotos, tecnicolor, são as últimas recordações de seu melhor aniversário. Puxamos o pano marrom da mesa quando tudo acabou e era só farelos, refrigerante azul derramado e copos de plásticos cor-de-rosa.

Fragmentos de um céu claro com nuvens roxas e uma chuva verde para nos marcar. A gente sorria e pulava e dançava de mãos dadas, em roda. Quantas vezes nós caímos enquanto as pessoas cantavam no karaokê? Você sorria para minha bermuda curta e eu chorava por sua despedida eterna. Eu levei bolo gelado pra casa, embrulhado em papel alumínio fosco-dourado. O pratinho era laranja escuro.

O chão era laranja claro. As paredes de casa eram beges reluzentes. Os seus olhos eram púrpuras. Os meus, acizentados. Nossa amizade era assim, um festival de cores derramadas. Uma lata de tinta onde fitas brancas eram mergulhadas para nos unir pela cintura. E, meu deus! Sabe que nunca nos beijamos?

É que o beijo tornaria nossa infância de… Hum, aquarelada para um chatíssimo tom de sépia. Sépia, pode imaginar? Tão sem cor…! Eu verde, rosa, roxo, azul. Você amarelo, laranja, vermelho, violeta, magenta. Eu sempre sucinto, você sempre prolixa.

Nós. Pura percepção de nós - e por nós.

Apenas percepção visual? Um complexo de cor. De luz. De branco. De preto.

Eu, você e todas as cores - primárias, secundárias, terciárias, imaginárias - que remontam nossa lata de tinta. A gente, correndo por um universo infravermelho de flores e plantas coloridas de luz. As pupilas dilatam diante de tantos tons fortes. Tudo muito fotossensível - não para meus olhos, mas para meu coração.

Há muita luz no lugar onde guardo minhas memórias mais diluídas.

Há muita luz no lugar onde guardo você, preenchida por todas as cores.



4 Responses to “A Lata de Tinta”  

  1. 1 Julliane Brita

    Estou sem palavras.
    Você parece conhecer histórias a que não tem nenhum acesso. De repente, imaginário, mas esse não conta agora para a minha vontade de revelar coincidências atordoantes da vida.
    Parecem histórias paralelas.

    Desde que ‘nos falamos’ sobre a publicação, foi uma correria tão grande!
    Eu ficava sempre lembrando… “preciso enviar o jornal, preciso enviar o jornal”.
    Se possível, passe seu endereço para que eu envie.
    Posso também mandar por pdf, se você preferir.

    Lindos seus textos.
    Continuo encantada.
    Abraços.

  2. 2 Emile

    Fiquei impressionada com ‘certas coincidências’ … por que será que certas estórias simplesmente encaixam na gente??? :-p
    Bjks

  3. 3 Garota das Laranjas's Father

    Parabéns pela fluência e leveza na escrita. Todo mundo devia ver o mundo a cores e de quebra levar sua própria lata de tinta pra colorir a tristeza dos outros.
    Segue em frente pintando o caminho da vida que ainda precisa de cor.

  4. 4 Pelvini

    ilustre comentário acima;

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