No auge de seus dez anos que Marta ouviu o grito de dona Teresa e limpou toda sua casa. Marta era a segunda caçula de nove irmãos e tinha o corpo de menina moça que papai se orgulhava demais. Papai nunca soube que eu limpei a casa de dona Teresa, diria Marta anos depois, mas eu levo aquela mágoa enquanto vou crescendo.

Não é assim Marta, e batia na mão da menina para que encerasse tudo direito. Mas estou fazendo igual a senhora, dizia ela, não, não está, replicava dona Teresa, e fazia com que a menina Marta encerasse os tacos do chão durante uma tarde inteira e sem almoçar que almoço a gente come na casa da gente. Marta era criança mas sabia muito bem reconhecer velhas pão-duras quando via uma, mas sabia que ganharia uma porção de sandálias como pagamento. Tudo que queria era uma sandália nova e encerar o chão de dona Teresa valeria à pena.

O suor escorria por seus braços e as mãos doíam em cãibras e ela carregou um saco preto de sandálias até os fundos de sua casa. Os brinquedos de Marta sempre foram sua vaidade e sua vaidade era uma companheira legal para brincadeiras quando estava de bom humor mas não estava naquele dia. Acontece que uma sandália era ainda mais linda que a anterior mas dona Teresa calçava trinta-e-quatro, Marta repetiu pra si mesma sem perceber, quando vestiu as sandálias se parecendo com um manequim velho de criança. Os olhos de Marta, maravilhados e brilhosos, arderam em brasa e as lágrimas esquentaram a terra batida do chão onde as lindas sandálias de dona Teresa estavam espalhadas.

Os braços retesados de dor e esforço e os joelhos machucados e os dedos doloridos e as sandálias foram jogadas de volta no saco de lixo. Sozinha (aconteceu da vaidade infantil ficar bem lá encolhida no canto dos fundos do barracão onde morava com os irmãos e os pais), Marta corre pelo meio da rua vazia e vai até o terreno baldio onde todo mundo joga o lixo e se livra das sandálias e das lágrimas.

Nunca ninguém soube da faxina que Marta fizera de graça por todos esses anos e Marta nunca se livrou de sua mágoa até que trinta anos depois desabafa com Maria que nunca conseguiu se livrar da ferida que aquelas sandálias, de luxo e de lixo, lhe causaram e que no fim das contas, elas nem eram tão novas assim e era ela quem era inocente demais.

Papai nunca soube dessa história porque ia me matar, mas mamãe nunca soube também, acho que ela teria vergonha, lamenta-se, mas vovó teria vergonha da senhora mamãe, você era a caçula e caçulas são todos queridos, mas acontece que nós éramos muitos e todos eram caçulas aos olhos de mamãe e papai, Maria, você não entende. Maria é filha de Marta e futura mãe de Marli e só entendeu a mágoa das sandálias de Marta quando Marli veio dizer por meio de metáforas que trabalhara um dia inteiro de graça. Marta já estava há muito tempo à sete palmos do chão para compartilhar do entendimento da filha e não foi enterrada de sandálias.



No Responses to “Sandálias de Marta”  

  1. No Comments

Leave a Reply