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Cordas

30Ago08

Sentou-se abaixo do monumento em restauração, a mochila xadrez jogada na escada e o Converse amarelo próximo à cintura quando ela abraçou os joelhos. Minutos, segundos. Afastou uma mecha clara da frente dos olhos, suspirou. Perdendo o tempo, de novo. E de novo, de novo, de novo… Minutos, segundos - não, eram dias, semanas.

O monumento lançava sombra, mas o sol tornava o pó que flutuava em partículas douradas. Era o tipo de espetáculo que as pessoas que passavam ali - em abundância - preferiam não reparar. Era a saída de uma estação de trem. Evidentes eram a efemeridade do olhar, o enegrecimento do coração. Que estúpida rotina… A não ser pela garota sentada na escada em pleno entardecer. As pessoas passavam e se perguntavam o que a menina estava fazendo ali, embaixo da restauração do monumento, as duas, estátua e menina, tocadas de pó, as duas com o coração petrificado.

Dentro da mochila, caderno de capa dura, caneta preta e um coração despedaçado. Uma última carta, é isso. Para não ter mais que pensar. Para abreviar aquilo tudo - os segundos, os minutos, os dias, as semanas - em dez linhas de xingamentos e expressões mal-educadas. No celular, a foto do menino de violão. Ele, um talento em melodia e canção. Ela, um talento em apertar e despedaçar - o próprio coração.

A caneta risca o papel, rápida.

“Serei fria, mas não insincera. É uma tentativa inútil, mas meu coração espera… Por um tocante final de solidão e pelo início singelo de uma improvável relação.
Olha, faz muito tempo que não mando cartas a alguém. Talvez você tenha razão e a gente não tenha mesmo muito a ver. Enfim, você ou eu vai acabar encontrando os que nos pertencem - e eu quero.
Eu me lembro de você me mostrando o seu violão. Você deixou eu, uma menina boba, tocar as cordas e falsificar falsetes aquela tarde toda. Quando você estiver por aí, tocando para as outras pessoas, eu espero que você se lembre desse momento estúpido e feliz de nós dois.
Dizem que os grandes artistas são solitários. Talvez seja isso que você precise, solidão… Para criar. Talvez seja aí que nossos caminhos fiquem paralelos - feito as cordas de seu violão.
No dia que você quiser se lembrar de mim, dá uma olhada no seu celular. Meu número está lá. Eu digo isso pois, por mais que saiba que jamais nos encontraremos de novo, ainda tenho medo de que você me esqueça.
Jamais - nos - encontraremos - de - novo. Cinco palavras e uma sentença. Fim.”

- Tá fazendo o que aí sentada no meio do nada?

Ela levanta a cabeça, não antes de reler “Jamais nos encontraremos de novo”. Está quase escuro, mas a sombra ainda alcança e cerca os dois, como uma redoma. Ele está como sempre. Calça jeans, camiseta, violão dentro da capa, nas costas.

- Tá fazendo o que aqui? - ela repetiu.

- Vou pegar um trem, mas tenho uma hora e meia ainda. Que tal tomarmos um refrigerante? Depois podíamos, sei lá…

“Jamais nos encontraremos de novo.”

- …tocar violão?

- É, podemos tocar violão… - tornou ele, estendendo uma mão suave pra ela.

As cordas de um violão nunca se tocam, mas ainda assim não deixam de fazer boa música. Naquela tarde, os dois perderam hora e minutos um com o outro, mas ganharam uma coisa muito mais preciosa que qualquer carta malcriada: tempo.


Chorei bastante com este “Encantadora de Baleias”, filme simplório de 2003. Produção neo-zelandesa, o filme retrata a história de Paikea, uma garotinha da tribo Maori, cujo destino era se tornar a próxima líder de seu povo - isto, é claro, se ela nascesse como garoto. Tornando-se desde seu nascimento uma decepção para seu avô, atual líder da tribo, Paikea irá descobrir os desafios e os preconceitos impostos pelas crenças do povo em que vive.

Na época Indicada ao Oscar de Melhor Atriz, Keisha Castle-Hughes de fato rouba o filme nas cenas em que aparece (é claro que, na época, a garota não tinha chances, visto que competia com Charlize Theron em Monster). Interpretando a possível herdeira de um povo, é pela voz da personagem principal que vamos conhecendo os contratempos de sua história: ela não tende prever o futuro, mas algumas vezes soa deliciosamente profética. É bacana perceber o quão grave a garota deixa sua voz enquanto narra a história enquanto, como personagem, assume um tom justamente infantil.

Com um rosto peculiar e enigmático, Paikea pode não ser a queridinha aos olhos do avô, mas demonstra atitudes de uma líder natural. Não podendo participar dos ritos e das aulas de liderança por ser garota, ela passa a ouvir as histórias escondida: diz-se que o primeiro líder da tribo veio do mar montado em uma baleia, guiando o povo Maori para uma boa terra. Desde então, a liderança do povo vem passando de homem para homem - até o nascimento de Paikea. Para a ira do avô, o irmão gêmeo da garota morrera no nascimento, interrompendo a linhagem. Paikea, então, é criada convivendo com a rejeição e tirania de um avô extremamente tradicional - e, emociona ver que, mesmo assim, o amor de Paikea pelo avô é absolutamente incondicional.

A opção do roteiro, de demonstrar Paikea como uma enviada, é cabível: a menina parece ter uma ligação forte com o mar, parece ouvir chamados das baleias (e as cenas aquáticas, mostrando os animais, são lindas de morrer só por sua existência), sabe desde o início o tamanho de sua importância.

Dirigido com sensibilidade (e feminismo) por Niki Caro, Encantadora de Baleias tem o cuidado de não retratar Paikea como uma sofredora: menina forte, faz de tudo para provar à todos sua capacidade, inclusive aprendendo a lutar. Caro também acerta ao mostrar as peculiaridades do povo Maori, seus hábitos e costumes regionais. Acrescentar um humor sutil nas cenas que mostram o tio da garota também é uma decisão acertada: como o ator é bem gordo, temia que caísse no caricato, estragando o filme, mas isso não acontece. A sutileza de Caro também é bacana: algumas cenas e deduzimos, por exemplo, quem é o futuro amor de Paikea - mesmo que não haja uma cena de amor sequer.

No entanto, Caro comete um erro bobo: como Paikea narra a história desde o início, subentende-se que ela está viva; logo, fazer suspense sobre a possível morte da personagem é uma tentativa inútil de emocionar/surpreender. Nada que estrague o resultado final, no entanto.

Filme com um orçamento aparentemente pequeno e com uma trilha sonora extremamente simples… Tá aí, deve ser por isso que Encantadora de Baleias, com o perdão do trocadilho, me encantou: é tudo de uma beleza muito simples. É como ficar sabendo de uma lenda antiga, de um desses mitos de uma região qualquer. E impossível não se emocionar com um desfecho daqueles…

Portanto, fica a recomendação: alugue logo Encantadora de Baleias! De fato, se eu soubesse como, colocaria os links para download aqui… Então, que pena. Mas você pode ver o trailer da produção neste link.


Dando um exemplo sensacional de corporativismo capitalista, a Warner adiou a estréia de Harry Potter e o Enigma do Príncipe para 2009.

O teaser-trailer, no entanto, já pode ser conferido na rede:

Mais, aqui.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe tem estréia mundial em 17 de Julho de 2009.


Em um mundo de cores e sorrisos, o Contador de Histórias entretia as pessoas com suas - ora, que redundância - com suas histórias. As pessoas não sabiam ao certo se ele era ciente do poder de sua palavra e tampouco tinham coragem de perguntar. O fato é que o Contador de Histórias sabia muito bem como exercer seu ofício: sua voz tinha as entonações mais bacanas, ele era atento a detalhes que as pessoas perdiam, sabia caracterizar personagens como ninguém e, é claro, tinha a história oportuna para cada momento.

Certa vez, o Contador de Histórias se casou e teve filhos. Um de seus filhos era quieto, muito quieto. Ao invés de ficar atento às histórias do pai, o menino mergulhava no silêncio; e também mergulhava em sua própria timidez. O Contador de Histórias apercebeu-se de um filho exatamente diferente de si. Era assustador, é verdade, e ele esperou que isso não atrapalhasse a história dele. Mas, como um homem que conta histórias, sabia que reviravoltas - boas ou não - aconteciam em todas as histórias, de vida ou não.

Foi pensando nisso que o Contador de Histórias resolveu levar seu filho até a um lugar mágico. “E aonde vamos, pai?”. “À livraria. Quero te contar uma coisa.”

Levou o menino para a livraria. O garoto, acanhado, olhou lombadas e tocou papel. Era um menino, era verdade, e seus olhos brilhavam de uma forma tão mágica! O Contador de Histórias sentou-se, deixando que o menino criasse parte de sua infância - escrevendo-a com seus passos e movimentos leves de garoto. Quando finalmente ele escolheu um livro, juntou-se ao pai.

“Você quer ler este?”. O menino disse que sim com um movimento da cabeça. “Você está segurando uma história e uma vida nas mãos, filho. É assim que as pessoas conhecem outras pessoas: com histórias que se transformam em vida, e vidas que se tornam história.”

“Não entendi, pai.”

“Mas um dia você vai entender. E sabe por quê?”. O menino abanou a cabeça. “Porque um dia você vai perceber que ocupa o melhor lugar da história. Aqui, vou lhe mostrar qual é.”

E apontou, suavemente, para o nome do autor no topo da capa do livro.

“Você é o inventor e criador de sua história, filho.”, e o menino suspirou. “Nunca vou ser um bom contador de histórias como você, pai.”

“Filho…” - o pai sabia da importância das história e do poder das palavras como ninguém. Sabia, entretanto, de uma verdade que por ser tão ambígua, lhe era única:

“Não se conta histórias. Apenas vive-se.”

Depois disso, o Contador de Histórias foi até o caixa e comprou o livro.

Naquele dia, pela primeira vez, o menino percebeu que tinha uma história para contar. Se era boa, ele não sabia.

Mas era uma história inteirinha para viver.