quem?
A maioria das pessoas me conhece por Rafa. Só no ano passado que passei a ser conhecido - pelo menos para alguns - como Pelvini. É que Pelvini é o nome que eu adoto quando escrevo. É também o meu último sobrenome.
A primeira vez que escrevi alguma coisa foi na primeira série. Eu tinha sete anos. A professora pediu pra gente escrever alguma coisa - qualquer coisa - para nos avaliar. Tinha um texto legal no fim do nosso livro e eu já tinha lido no começo do ano. Gostava muito daquele texto, contava de um menino chamado Henrique que era aficcionado pelas horas e por tudo que começava com a letra H. Na minha redação eu reproduzi o que tinha entendido da história do Henrique, colocando as palavras mais legais que conseguia me lembrar, tipo hipopótamo. Entreguei a prova para a professora e no dia seguinte ela nos devolveu. Do lado de um enorme zero, a mensagem era acusadora: ‘Voce copiou do texto Henrique e as Horas’.
Tremi feito vara verde para mostrar isso para os meus pais quando cheguei em casa. Sinceramente não me lembro se eles me falaram alguma coisa ou deram alguma bronca, mas a gente acabou descobrindo no fim do ano que minha professora da primeira série era uma vaca. Mas não é dela que estamos falando, não é mesmo?
Bibliotecas são os meus refúgios favoritos: adoro explorar os livros escondidos, sentir o cheiro de guardado, pegar nas páginas novas ou antigas e sentar enquanto alimento meus olhos. Fiz grandes amigos em bibliotecas. Quando eu tinha uns treze anos, passava meus recreios na biblioteca do colégio. Não consigo esquecer a cara da monitora que servia de bibliotecária. Na primeira semana ela insistia no discurso ‘você de novo?’, até que a venci pelo cansaço.
Meu ritmo de leitura era tão desenfreado que minha mãe veio me revelar no ano passado que achava que eu tinha algum problema social. ‘Isso explica o fato de você ter me colocado no psicológo quando eu era novo’, eu disse. ‘Sim, explica’, ela falou. A mãe de uma antiga amiga minha, a Giovanna, dizia pra minha mãe não se importar por ter um filho tão diferente, e que ela devia era se orgulhar. Eu só fiquei sabendo disso no ano passado.
Eu parei de ler um pouco quando nos mudamos para Mococa. Eu tinha catorze anos, só. Meu aniversário de quinze anos foi lá, e foi o pior aniversário da minha vida. Como estávamos há só um mês lá, eu ainda não conhecia ninguém. É, Mococa foi bem difícil no começo. Certa vez, eu saí de bicicleta e peguei a estrada para ir o mais longe que eu conseguia chegar. Pode-se considerar, então, que eu já fugi de casa. Não fui mais longe que quinze quilômetros.
Todo mundo ri quando eu falo que já morei numa cidade chamada Mococa. Eu acho que é de desdém. Eu também dou risada quando me lembro de lá, mas é de felicidade mesmo. No fim das contas, os três anos em Mococa foram os três melhores de minha vida. Alguns dizem que eu tenho uma ligação cármica e de outra vida com aquela cidade, mas eu penso diferente. É que foi lá naquela cidade que eu conheci a mim mesmo, sabe? Foi lá que fiz os meus primeiros melhores amigos e foi lá que me apaixonei pela primeira vez. Foi em Mococa que tive meu primeiro porre, foi onde tive meu primeiro beijo, coisas assim. Se eu tiver a sorte de chegar aos sessenta, tenho certeza de que terei acessos de saudosismo com tudo isso.
Certa vez, já no segundo ano do ensino médio, eu e mais três amigos nos sentamos para conversar. Um deles nos contou que tinha feito um acróstico super legal. Eu adoro acrósticos, inclusive já escrevi uns texto malucos em que você juntava todas as primeiras letras de todo o texto e formava uma frase. Mas o acróstico que o Fernando criou era bem mais legal: VIDA - Vivendo Intensamente os Dias Atuais. A gente rachou de rir na hora que ouviu. Hoje tenho isso como uma verdade.
Eu chorei bastante quando me mudei de Mococa. Foi a vez que mais chorei na vida. Acho que não só pela cidade, mas por mim mesmo. Sabe quando você simplesmente acha que não vai encontrar pessoas como aquelas que conheceu ou viver momentos como aqueles que viveu, ou enfim, ser feliz novamente? Então.
Por sorte, eu estava errado. As pessoas dizem que eu sou tão diferente que acabo atraindo pessoas diferentes pra perto de mim. É, eu já tive amigos bem atípicos mesmo. Uma amiga me presenteou com uma carta de baralho (este foi o melhor presente que já recebi na vida) e meus pais ficavam indignados com os livros que eu ganhava de presente de uma professora que acabou por virar uma amiga também. Eu trocava cartas (escritas, não de baralho) com uma amiga do Rio de Janeiro e com outra de São José dos Campos. Escrevi uma história de terror em que meus amigos eram os personagens e eles morriam na história. Quando uma de minhas professoras ficou sabendo, me recomendou severamente a um psicólogo (ok, você vai começar a achar que eu sou um serial killer - de fato, esse foi meu apelido durante o ano de 2003). Bom, acho que nos fim das coisas, não sou uma pessoa muito comum, não.
Ser diferente não é realmente ruim, se você adotar o pensamento de que você é diferente diante do que se é chamado normal, e para você o normal é que é diferente. É um pouco difícil de entender, mas se você parar pra pensar é verdade.
Bom… Pelo menos eu acho.
Bons dias meu caro. Nesse momento em que preferi descançar ao invés de mergurlhar nos trabalhos acadêmicos me recordei de ti. Tão logo busquei por algo que alimentasse a mim de maneira como os livros o fazem. Sinceramente ainda não tinha lido este texto sobre quem és tu! Tenho que admitir que estou profundamente admirado!
Sabes que para mim você ocupa uma posição estranhamente interessante. É como uma inspiração ao ler teus textos e ao mesmo tempo um molde real de ser legal. Você é o Rafa e o Pelvini, e o cara com quem converso e é claro… também um dos caras que considero meu amigo. Nas memórias que faço questão de preservar de ti, o fantástico é que nem todas elas são puros sorrisos… Lembranças são tão traidoras pois a cada tempo que as revisito tenho sensações diferentes.
Apenas escrevo por agora para te dizer que você meu caro é para mim um grande! Um imortal!
Um grande abraço e tenha bons dias…